Por Arthur Fonseca, Head de Marketing da V4 Company

Por muitos anos, o marketing digital viveu sob a lógica da interrupção: exibir anúncios no feed certo, na hora certa, com o público certo. Mas essa engrenagem, antes precisa e rentável, está perdendo potência. A proliferação de planos pagos sem anúncios — de Meta a Netflix — tornou explícita uma realidade que o mercado relutava em admitir: a atenção é um recurso finito e, cada vez mais, pago pelo próprio usuário. 

A consequência é direta: se o público pode comprar o direito de não ver anúncios, as marcas precisam aprender a conquistar — e não a comprar — atenção. E é justamente aqui que o entretenimento deixa de ser “branding” e se torna performance. 

A pesquisa global Still Watching 2025, da Netflix, detalha com profundidade o que está acontecendo. O estudo mostra que as pessoas passam, em média, 6h40 por dia nas telas, e metade desse tempo é dedicada a séries, filmes e vídeos. A escolha diz tudo: quando realmente querem se concentrar, especialmente Millennials e Gen Z, eles recorrem ao streaming — um ambiente de atenção profunda e emocionalmente carregada. 

No Brasil, 72% desses jovens dizem prestar mais atenção aos anúncios em streaming do que em qualquer outra mídia. Mais do que isso: no plano com anúncios da Netflix, sessões chegam a durar, em média, 3,6 horas, demonstrando um nível de imersão incompatível com formatos tradicionais de mídia paga. É impossível ignorar essa mudança de comportamento: o entretenimento se tornou o território onde a atenção realmente acontece. 

E atenção profunda traz um efeito que nenhuma mídia de interrupção entrega: vínculo. 81% dos brasileiros dizem ter ficado “obcecados” por uma série ou filme no último ano, e 84% afirmam que, quando amam algo, contam para todo mundo — online e offline. É o boca a boca revisitado em escala global. Não à toa, o estudo revela que 77% têm mais chance de comprar de marcas alinhadas a seus fandoms favoritos. Aqui, não estamos falando de awareness, mas de comportamento de consumo. 

Essa dinâmica muda não só a publicidade, mas o funil inteiro. O documento estratégico que você enviou já apontava essa transição: do “anúncio → clique → conversão” para “conteúdo → interesse → comunidade → compra”. A pesquisa reforça esse movimento: 96% dos Millennials e Gen Z afirmam que o streaming ampliou os tipos de conteúdo que consomem, e 90%, que expandiu sua visão de mundo. Isso significa que o conteúdo não só atrai atenção, mas molda repertório cultural — e, por consequência, a própria identidade das pessoas. 

Essa imersão cria um ambiente onde anúncios funcionam melhor quando combinam com o conteúdo. 79% prestam mais atenção quando o anúncio segue o tom da série; 84% quando usa personagens ou cenas; e 85% quando conversa com o mood do espectador. Ou seja: o contexto virou parte essencial da performance. 

Ao mesmo tempo, a atomização do inventário pago nas redes sociais — resultado de planos sem anúncios, repasse de impostos e limitação de tracking — encarece a mídia tradicional. Não por acaso, especialistas da V4 alertam que “viver só de mídia paga é construir casa em terreno alugado”. É uma metáfora precisa: custos sobem, alcance diminui, dados ficam escassos — e o ROI sofre. 

Enquanto isso, o streaming oferece exatamente o oposto: profundidade, contexto, fandom, atenção real. 62% dos jovens brasileiros dizem prestar mais atenção aos anúncios em seu serviço de streaming favorito do que em qualquer outro lugar. E quando o conteúdo vira cultura — como Round 6, Wandinha, Sintonia ou Adolescência — as marcas que entram na conversa não só performam melhor como se tornam parte da narrativa. 

O fato é simples: o entretenimento virou um motor de performance. Não substitui a mídia paga, mas reconfigura o jogo. Plataformas de streaming oferecem não apenas inventário publicitário, mas uma oportunidade de integrar marcas em histórias, personagens e universos que já mobilizam comunidades apaixonadas. E comunidade é escala emocional — a nova métrica de performance. 

Num mundo em que o público pode pagar para bloquear anúncios, o caminho não é gritar mais alto. É participar do que as pessoas já amam. É criar série, collab, reality, editorial, narrativa. É substituir interrupção por conexão. 

No marketing contemporâneo, performance não é só mídia. 
É cultura. 
É história. 
É contexto. 
É pertencimento. 
É entretenimento. 

E quem entender isso agora estará anos à frente. 

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