O principal alerta da NRF 2026 não é sobre adotar mais tecnologia, mas sobre reduzir o cansaço e facilitar a vida do consumidor. No Brasil, quase metade das pessoas (49%) afirma que comprar hoje é mais cansativo do que antes, um dado que sintetiza a mudança estrutural em curso no varejo: a transição de um modelo centrado na transação para outro baseado em mediação humana, redução de atrito e apoio efetivo à decisão de compra.

A nova edição do Pulso NRF 2026, com análises da Score, agência de Brand & Shopper Experience do ecossistema Biosphera.ntwk, e da Hibou, Instituto de Pesquisa e Insights, revela que o consumidor brasileiro deixou de ser apenas um “caçador de promoções” para assumir o papel de gestor do próprio orçamento, buscando previsibilidade, segurança e escolhas que reduzam arrependimento.

Vida cara e consumo sob controle

O impacto do custo de vida é profundo e contínuo. O estudo mostra que 45% dos consumidores passaram a comparar mais preços, 43% cortaram itens não essenciais e 39% reduziram os volumes de compra. Apenas 11% mantiveram as mesmas marcas sem mudanças relevantes.

 “O dado central não é a busca por preço baixo, mas por controle. O consumidor reorganiza prioridades e adia decisões quando não se sente seguro”, analisa Albano Neto, CSO da Score. A redistribuição do orçamento além das compras do dia a dia(mercado) vão principalmente para saúde (47%), contas essenciais (43%), moradia (34%) e parcelamentos (28%).

Para Ligia Mello, sócia da Hibou, preço e qualidade deixaram de ser opostos. “O consumidor não abandonou o desejo por qualidade, ele passou a alternar ritmos de compra. Nem sempre é possível ter o melhor, mas a expectativa é manter esse padrão quando dá”, explica o Instituto.

Saúde como critério possível, não aspiracional

A saúde já influencia diretamente a decisão de compra: 44% dizem que ela pesa muito ou é o critério principal, enquanto 42% afirmam influência moderada. Na prática, 60% evitam snacks ultraprocessados e 55% reduzem refrigerantes e bebidas adoçadas.

Mais do que uma tendência wellness, o movimento reflete a autoproteção do corpo, da energia e do bolso. Há espaço para marcas que ajudem a escolher melhor sem culpar o consumidor. Cresce a lógica do bem-estar realista, conectado à rotina, à família e ao autocuidado possível.

Assistência híbrida vira padrão de confiança

Quando algo dá errado, o modelo vencedor combina tecnologia e pessoas. Quatro em cada dez consumidores preferem resolver primeiro no digital, mas com acesso rápido a um humano. Um quarto ainda prefere falar direto com alguém,  número que sobe para 36% entre pessoas com mais de 55 anos.

 “O que a NRF chama de ‘mediação humana’ aparece com força aqui: automação como base, humano como camada de confiança”, resume  Albano Neto, CSO da Score. O varejo passa a ser avaliado menos pela velocidade e mais pela capacidade de resolver ansiedade.

A inteligência artificial é percebida majoritariamente como ferramenta prática: 49% a veem como útil para comparar preços e benefícios, 40% para localizar produtos e 38% para agilizar pagamento e entrega. Ainda assim, 72% dizem que a presença de IA não interfere na decisão de compra, e 19% preferem menos tecnologia.

 “O papel ideal da IA é claro: ajudar a economizar tempo e dinheiro, sem aparecer como ‘feature'”, destaca Ligia Mello da Hibou. Para públicos mais maduros, a recomendação é torná-la invisível e reforçar a sensação de controle.

Personalização sem aprisionar

O uso de dados segue sendo um território sensível. Apenas 5% dizem gostar quando as marcas personalizam ofertas; a maioria aceita apenas se for útil e contextual. Para 56%, a personalização ideal é oferecer opções sem limitar a escolha. A boa personalização é curadoria com liberdade, não adivinhação, transparência e controle explícito passam a ser indispensáveis.

Longe de perder relevância, a loja física se consolida como espaço de certeza: 67% valorizam ver e experimentar produtos, 64% querem sair com a compra na mão e 35% buscam resolver dúvidas com pessoas reais. Uma boa experiência em loja faz 61% comprarem mais e 41% confiarem mais na marca. A loja é o oposto do cansaço digital, ela funciona como um porto seguro, com menos ruído e mais empatia.

O que a NRF 2026 confirma

O Pulso aponta uma convergência clara entre os dados brasileiros e a leitura global da NRF 2026: o varejo entra na era de menos empurrar e mais ajudar a escolher. A tecnologia que importa é a que alivia, e a experiência que marca é a que reduz o esforço, gera confiança e diminui o risco de arrependimento.

Entre os caminhos acionáveis estão o design de decisões mais simples, IA orientada à economia e previsibilidade, confiança como KPI estratégico, personalização com liberdade e a loja física como garantia humana. O futuro do varejo não é ser mais tecnológico, é ser mais útil.

Sobre o estudo

O Pulso NRF 2026 reúne dados proprietários, análises da Score e da Hibou e uma leitura aplicada dos principais insights da NRF para o contexto brasileiro, traduzindo tendências globais em planos de ação concretos para marcas, varejistas e ecossistemas de consumo.

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