O crescimento do uso de ferramentas de inteligência artificial nas plataformas de busca deve provocar uma queda de até 43% no tráfego dos sites jornalísticos, segundo relatório divulgado pelo Instituto Reuters. 

A análise, de alcance global, aponta uma mudança estrutural na forma como o público acessa informações e já se reflete em reduções de audiência em grandes veículos internacionais.

De acordo com o estudo, o principal fator está na expansão das chamadas buscas “sem clique”, em que respostas geradas por IA passam a ser exibidas diretamente nas páginas de resultados, reduzindo a necessidade de acesso aos sites de origem.

Respostas automáticas alteram a lógica de acesso à informação

Com a exibição de resumos no topo das buscas, plataformas como o Google concentram a atenção do usuário e limitam o fluxo de visitas aos portais. 

Para Felipe Cardoso, CEO da Rank Certo, agência de SEO orientada à decisão comercial, o impacto vai além da redução numérica de acessos. “Há uma perda de volume, mas o leitor que continua clicando tende a ter uma intenção mais clara. É um público menos ocasional e mais qualificado”, afirma.

Segundo ele, a mudança exige ajustes no planejamento editorial e digital. “O jornalismo passa a lidar com menos escala e mais profundidade. A lógica de desempenho precisa ser revista.”

Mercado brasileiro enfrenta mudança em cenário já fragilizado

No Brasil, a transformação ocorre em um ambiente marcado por fragilidade estrutural. 

Levantamento do projeto Mais pelo Jornalismo divulgado pela Agência Brasil mostra que, desde 2014, 2.352 mídias jornalísticas encerraram suas atividades no país, número superior ao de novos veículos criados no período.

O estudo também revela limitações na presença digital fora dos grandes centros. Em cidades com até 100 mil habitantes, mais da metade das rádios analisadas não possui portal de notícias, enquanto parte significativa dos veículos impressos operam sem site próprio.

Para Cardoso, esse contexto amplia o risco. “Quando o tráfego se torna mais escasso e mais qualificado, a ausência de estrutura digital reduz ainda mais a capacidade de adaptação desses veículos.”

Mudança no comportamento do leitor

O relatório do Instituto Reuters também identifica um público mais seletivo no consumo de notícias. Parte dos usuários evita o noticiário excessivo, enquanto outros buscam fontes específicas, com maior grau de confiança editorial.

“A audiência que permanece é menor, mas mais consciente do que procura”, afirma Cardoso. “Isso favorece veículos com identidade clara e consistência editorial.”

Relação direta com o leitor ganha relevância

Diante da instabilidade das buscas, editoras têm ampliado o investimento em canais próprios, como newsletters, podcasts e aplicativos, com o objetivo de reduzir a dependência de intermediários.

“A inteligência artificial não elimina o jornalismo, mas redefine o acesso à informação”, diz Cardoso. “Os portais que compreenderem essa mudança podem operar com menos tráfego, mas com maior valor por leitor.”

O relatório aponta que, nesse novo cenário, credibilidade, engajamento e relacionamento direto com o público tendem a se tornar ativos centrais para a sustentabilidade do jornalismo digital.

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