A inteligência artificial avança em ritmo acelerado e é hoje um dos temas mais debatidos do mundo. Pesquisa feita pela Ipsos e o Google com mais de 20 mil pessoas em 21 países mostrou que, em 2024, o Brasil ficou acima da média global no uso de inteligência artificial (IA), com 54% dos brasileiros relatando que utilizaram IA generativa enquanto a média global ficou em 48%.
Mas, enquanto as máquinas se tornam mais eficientes, uma pergunta ganha força no debate científico e corporativo: o que, afinal, continua sendo exclusivamente humano e por que isso importa tanto agora?
Segundo Carol Garrafa, engenheira e neurocientista, o crescimento da IA não diminui o valor das pessoas, mas reposiciona as competências que realmente fazem a diferença. “A tecnologia executa funções, mas não constrói relacionamentos, não toma decisões com base em ética e nem é capaz de atuar para o desenvolvimento pessoal e profissional das equipes”, diz a especialista.
Nesse cenário, ganham protagonismo as chamadas People Skills, as chamadas habilidades sociocomportamentais ligadas ao autoconhecimento, à empatia, à comunicação, à gestão emocional e à capacidade de se relacionar.
De acordo com Carol, a neurociência prova que essas competências ativam circuitos cerebrais responsáveis pela tomada de decisões conscientes, cooperação social e construção de confiança. “Elas não tem nada de ‘soft’, termo usado popularmente para defini-las, mas que pode trazer uma conotação errada de ‘macio’, ‘leve’, e, portanto, de que são menos importantes que as ‘hard skills’( capacidades técnicas). Na verdade, elas são habilidades complexas, treináveis e absolutamente estratégicas, especialmente em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos”, argumenta.
A neurociência reforça que o cérebro humano não opera apenas com lógica e dados: ele integra emoção, memória, valores e contextos sociais, todos estes elementos que nenhuma inteligência artificial conseguiria reproduzir de forma genuína. “Quanto mais automatizado o ambiente, maior a necessidade de pessoas capazes de interpretar nuances, lidar com ambiguidades e fazer escolhas éticas”, destaca a especialista.
Outro ponto de atenção é o impacto negativo do uso excessivo da tecnologia. “A dependência de respostas rápidas e automáticas pode reduzir a capacidade de atenção profunda e provocar superficialidade cognitiva”, diz Carol.
Portanto, para a especialista, desenvolver People Skills não é apenas uma vantagem competitiva, mas um plano de ação para conquistar mais saúde mental e ter um desempenho sustentável a longo prazo. “O cérebro precisa ser treinado para usar a tecnologia como apoio, não como substituto do pensamento”, alerta. “A IA só pode acelerar o mundo em que vivemos até certo ponto, a mente e as emoções humanas continuarão sendo imprescindíveis quando falamos de equilíbrio e saúde mental”, conclui.