O futuro da cultura corporativa passa por treinamentos sob medida

Por Elenise Martins, fundadora da EMRH Consultoria* Em um ambiente corporativo em constante transformação, o maior desafio das empresas não é apenas acompanhar o ritmo do mercado, mas garantir que suas equipes cresçam sem perder o vínculo com a cultura que as sustenta. O treinamento corporativo, quando bem estruturado, é uma das ferramentas mais poderosas para alinhar pessoas, propósito e desempenho. No entanto, para que gere impacto real, ele precisa ser construído de forma personalizada, respeitando a identidade da organização, os desafios das equipes e os objetivos estratégicos do negócio. O problema é que, em muitas empresas, o treinamento ainda é tratado como uma formalidade. São programas padronizados, contratados em pacotes prontos, que ignoram o contexto interno e as particularidades de cada área. Essa abordagem desconsidera que a cultura de uma organização é um organismo vivo, formado por valores, crenças e comportamentos que se expressam nas relações cotidianas. Quando o conteúdo de um treinamento não reflete essa cultura, o aprendizado se torna superficial e o retorno sobre o investimento tende a ser mínimo.  De acordo com o Panorama do Treinamento no Brasil 2023/2024 , elaborado pela Associação Brasileira de Treinamento e Desenvolvimento (ABTD) em parceria com a Integração Escola de Negócios, o investimento médio anual em T&D no país foi de R$ 1.012 por colaborador, um crescimento de 34% em relação ao período anterior. Em 2019, esse valor era de R$ 652, o que revela uma evolução, mas ainda modesta diante das transformações exigidas pelas novas formas de trabalho e pela velocidade tecnológica. Esse dado mostra que as empresas estão dispostas a investir mais, mas ainda falham em direcionar esses recursos para ações que realmente geram valor de longo prazo. Um exemplo ajuda a compreender essa diferença. Imagine uma empresa de tecnologia que define a inovação como valor central de sua cultura. Em vez de oferecer um curso genérico sobre produtividade, ela cria um programa interno de capacitação que desafia as equipes a resolver problemas reais da organização, promovendo maratonas de ideias, mentorias e espaços de experimentação. O aprendizado, nesse caso, não se dá apenas pelo conteúdo, mas pela vivência. Cada participante internaliza o que significa, na prática, fazer parte de uma cultura que valoriza autonomia, criatividade e solução de problemas. O treinamento, portanto, deixa de ser uma palestra e se transforma em uma experiência de reforço cultural. Essa mesma lógica se aplica a empresas de outros segmentos. Uma organização varejista que preza pelo atendimento humanizado pode desenvolver treinamentos baseados em simulações de interação com clientes reais, reforçando a escuta ativa e a empatia como pilares de sua atuação. Nesse caso, o aprendizado técnico se combina ao emocional, criando uma experiência muito mais potente e duradoura. O colaborador compreende, com clareza, que a excelência no serviço não é apenas uma meta de vendas, mas um reflexo direto dos valores da empresa. Além do fortalecimento da cultura, os treinamentos personalizados geram ganhos concretos em engajamento e retenção. Colaboradores que percebem coerência entre o que a empresa diz e o que ela faz sentem-se mais valorizados e dispostos a permanecer. Eles entendem que o investimento em desenvolvimento não é apenas uma exigência de performance, mas um gesto de confiança e reconhecimento. Isso cria um ciclo virtuoso em que o alinhamento entre valores e práticas se traduz em maior comprometimento, colaboração e desempenho coletivo. Em um mercado competitivo e volátil, treinamentos personalizados não são uma tendência passageira, mas um pilar de sustentabilidade organizacional. Eles permitem que as empresas evoluam sem perder a essência, equilibrando crescimento e coerência. Ao transformar a cultura em experiência de aprendizado, a empresa reforça sua identidade, aprimora suas lideranças e multiplica comportamentos desejados de forma orgânica. Mais do que formar profissionais capacitados, os treinamentos personalizados formam embaixadores da cultura corporativa. São colaboradores que compreendem e reproduzem, em cada decisão e interação, aquilo que a empresa defende como propósito. Quando o aprendizado nasce da cultura, o comportamento se torna autêntico e o engajamento, natural. Essa é a diferença entre treinar para o desempenho e educar para o pertencimento. Treinar é um ato de gestão, mas personalizar é um ato de estratégia. Essa é a fronteira que separa as empresas que apenas reagem às mudanças daquelas que conduzem sua própria transformação. Ao investir em programas sob medida, as organizações deixam de enxergar o desenvolvimento como custo e passam a tratá-lo como um instrumento de perpetuação da cultura e de diferenciação competitiva. O verdadeiro impacto de um treinamento não está na quantidade de horas aplicadas nem nas certificações obtidas, mas na capacidade de inspirar cada colaborador a agir em sintonia com o propósito coletivo. Treinamentos personalizados não apenas aumentam a performance, mas criam o elo que une o passado, o presente e o futuro de uma empresa. Eles transformam o aprendizado em cultura e a cultura em vantagem duradoura. *Elenise Martins é Graduada em Psicologia, Pós-graduada em Avaliação Psicológica, tem Formação em Coach Executivo e Organizacional, Formação em Criação e Desenvolvimento de Grupos Virtuais, é Instrutora certificada em MBTI®, Certificada em PDA e Human Guide. Atua na área de Recursos Humanos desde 2004.

O impacto da Inteligência Artificial na gestão de custos e eficiência em TI

Por Paulo Amorim A crescente complexidade dos ambientes de Tecnologia da Informação e a pressão constante por redução de custos têm levado as empresas a buscar soluções mais inteligentes e estratégicas. Nesse contexto, a Inteligência Artificial (IA) deixou de ser apenas uma inovação experimental e passou a ocupar um papel central na gestão de custos e na eficiência operacional em TI, especialmente em organizações que lidam com grandes volumes de dados, sistemas e infraestrutura. A IA permite analisar, em tempo real, o consumo de recursos tecnológicos, identificando desperdícios e oportunidades de otimização. Em ambientes de nuvem, por exemplo, algoritmos inteligentes conseguem prever demandas, ajustar automaticamente a capacidade contratada e recomendar o desligamento de serviços subutilizados. Segundo a Gartner, empresa global líder em pesquisa no segmento de tecnologia, empresas que utilizam ferramentas de otimização baseadas em IA podem reduzir seus custos de infraestrutura em até 30%, sem comprometer o desempenho dos sistemas. Além do impacto financeiro direto, a Inteligência Artificial também transforma a forma como as equipes de TI operam. Processos repetitivos e operacionais, como monitoramento de sistemas, análise de incidentes e abertura de chamados, podem ser automatizados por meio de IA. Isso reduz falhas humanas, acelera a resolução de problemas e libera os profissionais para atuarem em atividades mais estratégicas, aumentando a produtividade e a eficiência das equipes. Outro benefício relevante está na tomada de decisão. Com o uso de análises preditivas, gestores de TI passam a antecipar riscos, planejar investimentos com maior precisão e justificar gastos com base em dados concretos. A IA permite identificar gargalos antes que eles impactem o negócio, reduzindo custos com paradas não planejadas, retrabalho e correções emergenciais. A adoção da Inteligência Artificial também contribui para uma governança mais eficiente. Relatórios automatizados, análises de desempenho e indicadores em tempo real ajudam as empresas a manter controle sobre contratos, licenças e ativos de TI, garantindo maior transparência e alinhamento com objetivos estratégicos. Em um cenário de transformação digital acelerada, essa visibilidade é essencial para sustentar o crescimento de forma saudável. Diante desse panorama, investir em Inteligência Artificial na gestão de TI deixou de ser uma escolha e passou a ser uma necessidade competitiva. Quando aplicada de forma estratégica, a IA permite às empresas fazer mais com menos, equilibrando redução de custos, eficiência operacional e inovação contínua. Assim, a área de TI deixa de ser apenas um centro de despesas e se consolida como um pilar fundamental para o crescimento e a sustentabilidade dos negócios. *Paulo Amorim é engenheiro Mecânico Nuclear pela Universidade de Utah (EUA), MBA pela BYU Marriott Business School of Business, CEO e fundador da K2A Technology Solutions

Em 2026, a comunicação vai precisar de IA, mas principalmente de gente

Por Francine Ferreira Não é de hoje que a inteligência artificial se tornou uma realidade dentro das rotinas de comunicação. Ainda afirmar esse ponto pode até mesmo parecer obsoleto. No entanto, à medida que o tempo passa e o uso das IAs torna-se tão rotineiro, é preciso parar e refletir. Em termos de comunicação, quando a velocidade vira prioridade absoluta, cresce também o risco de a marca perder algo que não pode ser automatizado: intenção, critério e presença humana. E isso não é um debate meramente filosófico. É um debate que tende, a longo prazo, a definir reputação. O uso de IA nas empresas já atingiu escala. Na McKinsey Global Survey, “The State of AI: Global Survey 2025”, publicada pela McKinsey em novembro de 2025, 88% dos respondentes afirmam que suas organizações usam IA regularmente em pelo menos uma função de negócio. E é justamente quando quase todo mundo passa a produzir com apoio de ferramentas de IA que surge um risco silencioso: a padronização. Quando muitas marcas usam recursos semelhantes para criar mensagens, aumenta a chance de a comunicação soar igual, genérica e sem assinatura. Nesse cenário, a diferença deixa de ser “quem produz mais” e passa a ser “quem produz melhor”, com mais coerência e mais autoridade percebida. Porque em um cenário onde as inteligências artificiais podem sugerir rapidamente o que os negócios devem falar e como precisam se comunicar, é necessário atentar-se ao fato que, antes de pensar no “o que”, as empresas precisarão definir “o porquê” A comunicação produzida em massa já deixou de ser competitiva há muitos anos. Em uma sociedade que produz milhares de conteúdo a qualquer momento, o olhar humano se tornará, ainda mais, o diferencial. Em outras palavras, na comunicação em 2026, eficiência será pré-requisito. Confiança e cuidado serão o diferencial. O contexto do próximo ano favorece quem comunica com responsabilidade A necessidade de a empresa ser vista como autoridade confiável cresce, porque o ambiente informacional está mais instável a cada dia que passa. No Global Risks Report 2025, publicado pelo World Economic Forum, “misinformation and disinformation” aparecem como o principal risco comunicacional projetado para 2027, pelo segundo ano consecutivo. Esse tipo de cenário muda a lógica da comunicação empresarial: o público tende a desconfiar mais rápido, interpretar com mais cautela e cobrar sinais de autenticidade. Quanto mais conteúdo circula, mais valor tem aquilo que parece verificável, humano e consistente. A questão é que a confiança na forma como as empresas usam IA não está garantida. No “IT Security Stats for 2025”, publicado pela Salesforce, uma pesquisa com consumidores indica que 60% concordam que os avanços em IA tornam a confiabilidade de uma empresa ainda mais crítica, e apenas 42% dizem confiar que as organizações usarão IA de forma ética, número menor do que em 2023 (58%). Para a comunicação, isso é um aviso direto: se a marca delega tudo para a IA, sem direção ou toque humano no processo, ela não só corre o risco de soar genérica, como também pode alimentar a desconfiança. O equilíbrio que tende a definir 2026 O debate, portanto, não é “usar ou não usar IA”. É onde a empresa coloca a IA na cadeia de comunicação. Em 2026, a tendência é que ganhem força as marcas que conseguirem sustentar três coisas ao mesmo tempo: ·       Eficiência com critério, usando IA para acelerar etapas operacionais, sem entregar a ela decisões de posicionamento, tom e contexto; ·       Revisão humana como regra, especialmente em temas sensíveis, comunicação institucional, reputação e qualquer mensagem com potencial de crise; ·       Humanidade como assinatura, com mensagens que tenham voz própria, coerência e verdade, porque é isso que gera confiança e sustenta autoridade no longo prazo. A IA pode ajudar a comunicação a ir mais rápido. São apenas as pessoas, porém, que garantem que ela vá na direção certa.

O descanso também é trabalho

Por Tatiana Pimenta, CEO da Vittude* Vivemos numa cultura que celebra o fazer. Entregar mais, render mais, acelerar sempre. Descansar virou sinônimo de luxo, e parar, um verbo quase proibido. Mas o corpo e a mente têm uma sabedoria que o mercado ainda insiste em ignorar:  descansar também é trabalho. A autora Tricia Hersey, no livro ‘Descansar é Resistir’, define o descanso como “um ato de coragem que poucos te estimulam a praticar”. Ela propõe uma inversão necessária: o descanso não é um intervalo entre conquistas, mas parte do processo que as torna possíveis. Quando ignoramos isso, a conta chega na forma de fadiga, desatenção, irritabilidade, perda de criatividade e esgotamento. Não é falta de competência, é falta de recuperação. Foram cinco maratonas e muitas horas de treino até entender o óbvio: descanso também é parte do treino. Nos ciclos de corrida, ele é parte do planejamento, e o “day off” não é negociável. É o dia em que o corpo trabalha de outro jeito: reconstrói fibras, repara microlesões, recupera energia. Sem ele, o atleta não evolui.  Hoje, vivendo a gestação da minha primeira filha aos 44 anos, essa compreensão ganhou uma nova camada de profundidade. No primeiro trimestre, o sono parecia infinito. O corpo, silenciosamente, está criando uma nova vida, construindo a placenta, dobrando o volume de sangue, reorganizando tudo por dentro. Enquanto a mente cobrava produtividade, o corpo fazia o que sabia: desacelerava para gerar. Trata-se então do descanso atuando como força vital, e não como pausa. A biologia entende o que o mundo corporativo ainda reluta em aceitar: sem regeneração, não há crescimento. O descanso que também produz Nos ambientes de trabalho, ainda confundimos presença com performance. Mas estar não é o mesmo que entregar. Segundo o Censo de Saúde Mental da Vittude, o presenteísmo médio nas empresas brasileiras é de 31%. Ou seja, um terço da capacidade produtiva se perde porque as pessoas estão esgotadas, mesmo quando não faltam. Esgotamento não vem apenas do excesso de carga, mas da falta de pausa. A mente precisa de espaço para processar, o corpo precisa de tempo para recuperar, e a criatividade só floresce no intervalo entre um esforço e outro. Lembro de um exemplo recente. Era o fim de semana antes do Vittude Awards, e eu ainda não tinha finalizado meu discurso. Poderia ter passado o sábado e o domingo revisando cada linha, mas decidi descansar. Na segunda-feira, acordei leve, inspirada, e o texto saiu inteiro em uma hora. Se eu tivesse insistido, exausta, provavelmente teria levado três vezes mais tempo e o resultado seria pior. O descanso também produz, mas de outra forma. Ele reorganiza o pensamento, clareia as ideias, devolve propósito. Aprender a descansar também é aprender a liderar. Nos últimos meses, a gravidez tem me ensinado sobre ritmo, priorização e confiança. Tenho delegado mais, praticado escuta, me aproximado das pessoas e, principalmente, preparado o time para funcionar bem na minha ausência. Descansar é, de certo modo, confiar: em si, nos outros e nos processos. Uma liderança descansada inspira segurança. Uma liderança exausta, ao contrário, contamina. Empresas que tratam descanso como fraqueza alimentam o presenteísmo, rotatividade e perda de engajamento. Já aquelas que entendem o descanso como estratégia constroem times sustentáveis  e resultados mais consistentes. Não é coincidência que a Gallup mostra que equipes com líderes equilibrados e emocionalmente estáveis apresentam 23% mais produtividade e 43% menos rotatividade. Cuidar da energia humana é, cada vez mais, uma questão de negócio. Descansar não é o oposto de trabalhar, é o que mantém o trabalho possível. Assim como o corpo do atleta precisa de pausa para evoluir, o corpo da gestante precisa de tempo para criar, e o corpo organizacional precisa de espaço para respirar. O descanso é o trabalho invisível que sustenta todos os outros. É nele que as ideias amadurecem, que as pessoas se reconstroem, que o futuro se prepara. Porque produtividade sem pausa não é sucesso, é fadiga com crachá. Aprendi, nas maratonas, na maternidade e na liderança, que parar também é continuar.  E que, no fim das contas, o descanso é o trabalho mais inteligente que existe.*Tatiana Pimenta é fundadora e CEO da Vittude, referência no desenvolvimento e gestão estratégica de programas de saúde mental para empresas. Engenheira civil de formação, com MBA Executivo pelo Insper e especialização em Empreendedorismo Social pelo Insead, escola francesa de negócios. Empreendedora, palestrante, TEDx Speaker e produtora de conteúdo sobre saúde mental e bem-estar, foi reconhecida em 2023 como LinkedIn Top Voice, e em 2024 como uma das 500 pessoas mais influentes da América Latina pela Bloomberg Línea.

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