*Por Diogo Catão, CEO da Dome Ventures
Na contramão da burocracia tradicional, um número crescente de governos no Brasil começa a apostar em soluções GovTech para prever e resolver problemas antes mesmo que eles impactem diretamente a população. A adoção de tecnologias inovadoras, como inteligência artificial e plataformas de serviços públicos conectados, está transformando a lógica da administração pública, fazendo com que ela atue de forma mais proativa e eficiente. No entanto, o avanço desse ecossistema ainda enfrenta barreiras culturais, jurídicas e políticas que impedem uma integração mais ampla e estruturada.
Embora haja um movimento crescente de abertura por parte de gestores públicos, ainda existe um descompasso entre o discurso de inovação e a prática cotidiana. De um lado, há lideranças que já compreendem as GovTechs como parceiras estratégicas; do outro, muitos órgãos ainda operam com uma mentalidade ultrapassada, presa a processos analógicos e morosos. A boa notícia é que esse cenário vem mudando. Há muitas Iniciativas e laboratórios de inovação, em diferentes esferas de governo, que têm estimulado a busca ativa por soluções tecnológicas e viabilizado novas modalidades de contratação facilitando o acesso de startups ao setor público.
A atuação proativa dessas startups também está modificando a relação entre Estado e cidadão. Quando o governo antecipa demandas, como o envio de equipes antes de um alagamento ou a deflagração de campanhas preventivas contra surtos de dengue, por exemplo, o poder público deixa de ser visto como um agente reativo e passa a ser percebido como parceiro efetivo da sociedade. Isso rompe com a lógica do improviso e constrói um modelo administrativo quase preditivo, no qual o serviço chega antes da dor.
Entre as tecnologias mais promissoras em 2025, destacam-se a inteligência artificial generativa e analítica. Elas são utilizadas não apenas para atendimento, mas para cruzamento de dados de mobilidade, saúde e segurança, com foco na previsão de cenários e automatização de decisões. Os gêmeos digitais de cidades também ganham espaço, oferecendo simulações realistas que evitam erros de planejamento urbano. Além disso, o modelo Government as a Platform permite que diferentes GovTechs conectem seus serviços à administração pública por meio de contratos SaaS, em uma lógica de performance e escalabilidade, abrindo caminho para um ecossistema mais fluido, integrado e orientado a resultados.
Apesar do avanço, as GovTechs ainda enfrentam obstáculos significativos. A hiperburocracia é um dos principais entraves, dificultando tanto a contratação por parte dos governos quanto a disposição das startups em ofertar suas soluções. Nesse contexto, modelos jurídicos mais flexíveis, como sandbox regulatórios e pilotos com baixo risco, são fundamentais. Outro desafio é a cultura de aversão ao risco, que só pode ser superada com a apresentação de dados concretos, parcerias confiáveis e cases de sucesso. Por fim, os ciclos políticos curtos exigem que os serviços oferecidos gerem valor de forma rápida e se sustentem independentemente de mudanças de gestão.
A transformação digital do setor público brasileiro passa, necessariamente, pelo fortalecimento das GovTechs e pela construção de pontes entre inovação e impacto social. Ao superar barreiras estruturais e culturais, esse ecossistema tem potencial não apenas de modernizar a máquina pública, mas de reconfigurar a experiência cidadã com o Estado de forma mais ágil, preditiva e centrada em resultados reais.
*Diogo Catão é CEO da Dome Ventures, uma Venture Builder GovTech que tem o propósito de transformar o futuro das instituições públicas no Brasil – e-mail: domeventures@nbpress.com.br