2026: A maior reestruturação tributária em 30 anos exige choque de governança nas empresas brasileiras

Empresários brasileiros iniciam 2026 sob a pressão de uma “tempestade perfeita” regulatória: a entrada em vigor da Reforma Tributária e o endurecimento das normas de saúde ocupacional (NR-1). A regulamentação da reforma sobre o consumo, aprovada pela Emenda Constitucional 132 de 2023, entrou em vigor ao mesmo tempo em que a Norma Regulamentadora 1 reforça as exigências relacionadas à segurança no trabalho. Para quem está à frente de um negócio, o impacto se espalha por áreas sensíveis como custos, formação de preços, folha de pagamento e organização interna A reforma cria dois novos tributos, a Contribuição sobre Bens e Serviços e o Imposto sobre Bens e Serviços, que substituirão PIS, Cofins, IPI, ICMS e ISS ao longo de uma transição que se estende até 2033. A promessa do governo é simplificar um sistema historicamente complexo. Hoje, o contencioso tributário brasileiro ultrapassa 75% do PIB, segundo estudo do Insper, um dado que dimensiona o tamanho do problema. O Ministério da Fazenda sustenta que a mudança tende a reduzir litígios e dar mais racionalidade à cobrança de impostos. Para Marcus Marques, especialista em gestão de pequenas e médias empresas e fundador do Grupo Acelerador, o risco está na inércia. “O empresário que deixar para entender a reforma quando ela já estiver impactando o caixa vai correr atrás do prejuízo. 2026 é o momento de revisar enquadramentos, simular cenários e organizar processos”, afirma. Ele observa que a alteração não é apenas técnica. Ao mexer na lógica de créditos tributários e na composição dos preços, a reforma exige visão estratégica. Essa nova camada de governança exigida pelo Estado não se restringe aos impostos; ela avança para o chão de fábrica e para o escritório. Enquanto a agenda fiscal avança, a atualização da NR 1 consolida a obrigatoriedade do Programa de Gerenciamento de Riscos para a maioria das empresas.  A norma reforça a necessidade de mapear perigos, documentar procedimentos e estruturar planos de ação. Dados do Observatório de Segurança e Saúde no Trabalho, iniciativa do Ministério Público do Trabalho em parceria com a OIT, mostram que o país ainda registra centenas de milhares de acidentes laborais por ano, o que mantém o tema sob pressão permanente. Na avaliação do empresário, muitos negócios ainda tratam a saúde ocupacional como item burocrático. “Gestão de risco não pode ser vista como formalidade. Uma autuação ou uma ação trabalhista pode comprometer o resultado de anos. Quando a empresa organiza seus controles, ela protege a margem e o patrimônio”, diz. Para ele, a integração entre áreas contábil, jurídica e operacional deixa de ser recomendação e passa a ser prática indispensável. O desafio ganha peso quando se considera que as pequenas e médias empresas respondem por cerca de 30% do PIB brasileiro e por mais de 55% dos empregos formais, segundo o Sebrae. São organizações que operam com estruturas enxutas e menor capacidade de absorver erros de planejamento, o que torna cada ajuste regulatório mais sensível. A avaliação de Marques dialoga com um movimento mais amplo de profissionalização do empreendedorismo. Nos últimos anos, o país registrou recordes de abertura de empresas, impulsionadas pela digitalização e pela busca de renda alternativa. O aumento do número de CNPJs, porém, não foi acompanhado na mesma proporção por estruturas de governança e planejamento. Para o mentor de empresários, a nova fase regulatória decreta o fim da era do amadorismo e tende a acelerar uma seleção natural entre negócios que operam com método e aqueles que dependem de improviso. Na prática, isso significa que temas antes restritos a grandes corporações passam a integrar a rotina de pequenos e médios empresários, como simulações tributárias de longo prazo, gestão integrada de riscos e definição clara de indicadores de desempenho. “Quem tratar 2026 apenas como mais um ano fiscal vai perder competitividade. O empresário precisa enxergar essas mudanças como oportunidade de organizar a casa e ganhar eficiência estrutural”, afirma. A soma de reforma tributária, reforço das normas de segurança e maior cobrança por governança aponta para um ambiente menos tolerante ao improviso. “O empresário brasileiro sempre foi resiliente, mas agora precisará ser também previsível. Quem dominar seus números e processos terá vantagem competitiva”, diz. O que se desenha é um ciclo em que planejamento fiscal, controle de riscos e disciplina de gestão deixam de ser diferenciais e passam a ser condição básica para sustentar crescimento. Em um país que convive há décadas com instabilidade normativa, 2026 inaugura um teste prático de adaptação para quem quer manter a competitividade em um ambiente mais transparente e exigente.

Reforma tributária: onde o varejo perde dinheiro sem perceber

Por Anderson Ozawa A reforma tributária deixou de ser uma discussão conceitual. Ela já está desenhada, aprovada em seus pilares centrais e em fase de regulamentação. O impacto real, porém, não será sentido nos discursos, mas na operação diária do varejo. Porque, no varejo, reforma tributária não é troca de sigla. É mudança profunda em sistemas, processos, preços e margem. E é exatamente nesse atravessamento que o dinheiro começa a sumir: sem erro grosseiro, sem alarme, sem culpado visível. O Brasil caminha para um modelo de IVA dual, com CBS e IBS, não cumulatividade mais ampla, tributação no destino e uma longa transição em que regras antigas e novas vão conviver. Na teoria, o discurso é simplificação. Na prática do varejo, o cenário é outro: ambiente híbrido, exceções, convivência de lógicas diferentes e alto risco operacional. E todo ambiente híbrido favorece um tipo específico de perda: aquela que acontece certo demais para chamar atenção. Sempre que a reforma tributária avança, a primeira reação de muitas empresas é perguntar: “Como fica o Sped?”, “O layout muda?”, “A impressora fiscal acaba?”. Essas perguntas não estão erradas, elas só não são suficientes. Sped, XML, cupom fiscal e impressora são meios de registro. Eles garantem que o Fisco enxergue a operação e, não que a empresa esteja economicamente correta. Uma venda pode estar perfeitamente documentada, transmitida e validada, e ainda assim estar mal tributada, mal precificada e o pior, destruindo a margem. A reforma exige mudança de lógica, não apenas de alíquota. É um evento que envolverá ações em ERP, PDV, área fiscal, setor de compras, na precificação e promoções que precisam operar com a mesma leitura tributária. O problema é que muitas empresas ajustam o fiscal e deixam o restante do negócio funcionando como antes, não existe um trabalho estruturado e conectado. E o resultado disso é que o sistema calcula, a loja vende, o relatório fecha e ninguém garante que o efeito econômico está correto. A reforma tributária impacta diretamente a formação de preço: crédito muda, incidência muda, fluxo de caixa muda e o varejo que não revisa sua lógica de precificação passa a operar com uma armadilha silenciosa com três momentos: o preço parece competitivo, o volume parece saudável, mas margem começa a desaparecer. Vender mais não corrige preço errado, muito pelo contrário, só acelera o prejuízo. Vamos pensar em um item básico de alto giro, como óleo de soja, que é um produto que vende bem, entra em promoção, gira rápido. Mas a mudança na lógica de crédito e incidência faz com que a margem real por unidade seja menor do que a planejada. E não há erro fiscal e tampouco há autuação, mas é um detalhe ignorado na formação de preço que, multiplicado por milhares de unidades, corrói resultado todos os dias. Isso é perda. Promoção é rotina no varejo e infelizmente, o improviso também ainda é. Com a reforma tributária, promoções sem governança viram território fértil para perda com desconto manual, combo mal parametrizado, cashback sem leitura tributária e exceções que não passam por simulação. O varejo comemora volume, mas quase nunca pergunta se vendeu certo. Outro risco silencioso é a pressa para “se adequar”, com interpretação superficial de regras, aplicação genérica, decisões copiadas sem testar na operação real. Na reforma tributária, o erro raramente vira multa imediata, mas, se torna um crédito não aproveitado, margem distorcida e um resultado menor aceito como normal. No varejo farmacêutico, por exemplo, um medicamento de marca com preço regulado, onde o valor de venda não muda. Mas um erro na classificação fiscal ou na leitura da nova regra faz com que o crédito tributário seja aproveitado de forma incorreta ou simplesmente perdido. A venda acontece, o caixa entra, mas parte da margem some sem explicação aparente. Não é crise econômica, efeito de eleições ou outro fator. Se trata de uma erosão silenciosa da lucratividade da empresa. A discussão ainda está concentrada no fiscal e no jurídico. Mas o maior risco do varejo está na operação onde mais regras, mais exceções, mais convivência de modelos aumentam o erro humano, a falha de processo e o desvio de execução, ou seja, a disciplina operacional, grande desafio do varejo. No varejo, risco operacional bate primeiro na margem e depois no caixa e, só muito depois vira pauta estratégica das reuniões de diretoria e, quando vira, normalmente já custou caro. A reforma tributária não vai quebrar o varejo, mas vai separar empresas organizadas de improvisadas, como sempre ocorre em eventos dessa importância. Não criará prejuízos, mas, vai revelar processos frágeis, preços mal-formados, promoções mal pensadas. Revela negócios que funcionavam no costume, no sempre fiz assim ou no nunca vai acontecer comigo. Quem tratar a reforma como obrigação legal vai pagar a conta sem entender de onde veio. Mas, quem tratar como mudança estrutural de negócio vai atravessar melhor e, em alguns casos, ganhar vantagem competitiva, porque, no varejo, o dinheiro não some por causa do imposto, ele some quando ninguém enxerga como o imposto atravessa o negócio inteiro. E isso, nenhuma reforma resolve sozinha. Como diz o ditado: o buraco é mais embaixo, ou como eu digo, o buraco é mais em cima. *É CEO da AOzawa Consultoria, especialista em Prevenção de Perdas e Governança, consultor com mais de 40 programas de prevenção de perdas implantados com sucesso, palestrante, professor da FIA Business School e autor do livro “Pentágono de Perdas: Transformando Perdas em Lucros”

Pesquisa revela que 97% das empresas não se sentem preparadas para a Reforma Tributária

Uma pesquisa recente com empresas brasileiras revela um cenário preocupante às vésperas da Reforma Tributária: 97% das empresas afirmam não se sentir preparadas para as mudanças e 69% ainda não iniciaram qualquer tipo de adaptação. O dado acende um alerta especialmente entre micro e pequenos empreendedores, que já enfrentam perdas financeiras provocadas por falhas de gestão e falta de organização. O levantamento realizado pela GestãoClick ouviu 234 empresas brasileiras, com coleta realizada entre dezembro de 2025 e janeiro de 2026, nível de confiança de 95% e margem de erro de aproximadamente 6 pontos percentuais. Segundo a análise, o principal problema não está no imposto novo, mas na desorganização interna, que amplifica os riscos e os custos da transição tributária.  Segundo a análise, o maior risco para as empresas não está no imposto novo, mas na desorganização da gestão, que já provoca perdas financeiras antes mesmo da Reforma entrar em vigor. O estudo mostra que 53% das empresas sabem que a Reforma vai impactar seus negócios, mas não sabem exatamente como, e 34% não conseguem avaliar onde ocorrerá esse impacto, o que compromete decisões estratégicas sobre preço, margem e planejamento financeiro. Entre as áreas mais sensíveis, a emissão de notas fiscais aparece como o principal ponto de preocupação. 70% das empresas apontam essa área como a mais impactada pela Reforma, enquanto 26,5% afirmam ter medo direto de cometer erros na emissão, falhas que podem resultar em multas, retrabalho, pagamento indevido de impostos e perda de tempo operacional. A formação de preços também surge como um fator crítico. 58% das empresas reconhecem impacto direto da Reforma na precificação, e 41% temem aumento do custo operacional, mas sem clareza sobre como absorver ou repassar esses custos.  Para a GestãoClick, isso evidencia que muitas empresas ainda não dominam seus números reais, o que pode levar tanto à perda de margem quanto de competitividade. Outro dado relevante diz respeito à integração entre gestão e contabilidade. A pesquisa aponta que 75% das empresas dependem do contador como principal fonte de informação sobre a Reforma Tributária, enquanto apenas 8,5% utilizam sistemas de gestão como apoio estratégico para orientação e tomada de decisão. A falta de integração entre áreas como financeiro, fiscal e vendas aumenta o risco de inconsistências e decisões baseadas em dados incompletos. O estudo também destaca o adiamento das ações como um problema estrutural. Além das 69% das empresas que ainda não começaram a se adaptar, 25% afirmam que não sabem nem por onde começar, o que amplia o risco de erros e custos mais altos no momento em que a Reforma estiver em plena implementação. Para a GestãoClick, a Reforma Tributária apenas expõe fragilidades que já existem na gestão das empresas brasileiras, como falta de controle financeiro, ausência de integração entre sistemas, desorganização fiscal e pouca clareza sobre indicadores essenciais do negócio. “A Reforma não cria o problema, ela escancara. Empresas desorganizadas já estão perdendo dinheiro agora, e o custo tende a aumentar para quem continuar adiando a organização”, aponta Lucas Sousa, gerente da GestãoClick. A pesquisa conclui que empresas que chegarão a 2026 em melhor posição são aquelas que já investem em emissão correta de notas fiscais, formação de preços baseada em dados reais, integração entre sistemas, proximidade com a contabilidade e uso de tecnologia para proteger o caixa. 

Tecnologia na área fiscal passa a influenciar a competitividade das empresas

A área fiscal deixou de ser apenas um centro de custos e passou a influenciar diretamente a competitividade das empresas. Organizações que estruturaram seus departamentos fiscais e tributários com apoio de tecnologia já começam a ampliar suas margens operacionais, ganhando previsibilidade financeira e fortalecendo sua posição no mercado. Além da redução de erros e retrabalho, a eficiência fiscal tem viabilizado decisões estratégicas mais precisas, simulações de cenários e crescimento sustentável. “A tecnologia transforma o ciclo fiscal em um ativo estratégico, capaz de impactar diretamente lucro, caixa e capacidade de investimento”, afirma Roberto De Lázari, diretor de parcerias estratégicas da All Tax. Segundo o executivo, o avanço tecnológico, somado à implementação da Reforma Tributária, torna a reestruturação da área fiscal um imperativo para a sobrevivência das empresas. “O fiscal deixa de ser reativo e passa a operar como um hub de governança e performance”, diz. Apesar da crescente digitalização dos negócios, muitas empresas ainda operam com processos fiscais manuais e fragmentados. De acordo com De Lázari, esse modelo consome cerca de 30% do tempo dos profissionais da área. “Processos manuais geram inconsistências, retrabalho e interpretações divergentes. O primeiro benefício concreto da tecnologia é a melhoria da qualidade dos dados, que são essenciais para uma operação fiscal eficiente”, afirma. Além da ineficiência operacional, a falta de automação reduz a visibilidade e a rastreabilidade, ampliando os riscos em um ambiente tributário complexo e volátil como o brasileiro. O resultado são disputas administrativas, judicialização e insegurança jurídica. No dia a dia, isso se traduz em mais horas dedicadas à burocracia. Dados do Banco Mundial indicam que empresas no Brasil gastam até 1.500 horas por ano com obrigações tributárias, enquanto, nos países da OCDE, a média é de 155,7 horas. A constante edição de normas e mudanças regulatórias agrava o cenário. Segundo De Lázari, a incapacidade de adaptação em tempo real eleva o risco de autuações, com multas que podem chegar a 150% do valor do imposto devido. Automação reduz erros e melhora o retorno financeiro Em contraste, sistemas automatizados que integram todo o ciclo fiscal, da captura de dados à entrega das obrigações, reduzem prazos de dias para minutos e aumentam significativamente a segurança das operações. “A automação elimina até 95% dos erros manuais e gera um ROI médio de 40% na redução do custo operacional anual”, afirma o executivo. A adoção de tecnologias inteligentes também ganha espaço no mercado. Pesquisa da KPMG, publicada em outubro de 2025, aponta que 60% das empresas brasileiras consideravam utilizar Inteligência Artificial Generativa em relatórios fiscais. Do total, 37% já haviam implementado ou testado IA para rastreamento de despesas e deduções, enquanto 22% usavam a tecnologia para monitoramento e conformidade regulatória. Esse movimento se intensifica com a chegada das chamadas Inteligências Artificiais autônomas, ou Agentic AI. Diferentemente das IAs tradicionais, baseadas em regras fixas, essas soluções detectam alterações legislativas em tempo real, atualizam regras fiscais automaticamente e executam apurações sem intervenção humana. “Essas tecnologias sinalizam exceções, corrigem inconsistências e escalam análises quando necessário, preservando governança, rastreabilidade e segurança jurídica”, explica De Lázari. Outro ganho relevante da automação fiscal é a capacidade de simular regimes tributários e projetar impactos antes da implementação de mudanças relevantes. Com base em dados reais, as empresas conseguem antecipar efeitos tributários em até 12 meses, aumentar em 30% a assertividade das decisões e reduzir riscos não mapeados. “Quando aplicada corretamente, a tecnologia transforma o fiscal em uma alavanca de negócio. Governança, precisão e controle passam a impactar diretamente o resultado financeiro”, afirma o executivo. Reforma Tributária acelera a transformação A Reforma Tributária reforça essa urgência. O novo modelo de IVA Dual, baseado em crédito e débito ao longo da cadeia produtiva, depende de dados confiáveis e validações digitais desde a origem das operações. Erros ou informações incorretas afetam diretamente o direito ao crédito tributário e, consequentemente, a margem e o caixa das empresas. “Na prática, o crédito passa a ser um elemento estrutural de margem e liquidez”, explica De Lázari. Segundo ele, empresas com governança de dados bem estruturada tendem a capturar mais créditos, com maior velocidade e menor risco. “Quem já é organizado transforma governança fiscal em retorno financeiro.” Nesta primeira fase da reforma, os novos tributos CBS e IBS ainda não serão efetivamente cobrados, mas já passarão a constar nos documentos fiscais. Para o executivo, 2026 será decisivo para a preparação das empresas. “A reforma premia quem controla dados e processos e penaliza quem opera no improviso”, conclui.

Reforma Tributária: “bug” do milênio para softwares fiscais ou oportunidade de ouro?

Por Mauricio Frizzarin Ao contrário do que muito foi falado, a Reforma Tributária deixou de ser uma “lenda urbana” de Brasília para se tornar uma realidade iminente no Brasil. No entanto, enquanto manchetes focam no impacto para grandes indústrias, uma revolução silenciosa e urgente bate à porta das empresas desenvolvedoras de software para o setor contábil, ERPs e serviços SaaS (Software as a Service). Para escritórios de contabilidade e pequenas empresas de tecnologia, a mensagem é clara: o modelo que funcionou nas últimas duas décadas está prestes a expirar. A promessa é sedutora: trocar cinco tributos complexos (PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS) por uma dupla moderna, o IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e a CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços). A “simplificação” traz, porém, uma complexidade transitória brutal para o setor de serviços digitais. A mudança mais dramática está relacionada à geografia do imposto. No modelo antigo, uma empresa de SaaS localizada em Barueri ou em Florianópolis pagava ISS conforme a alíquota de sua sede. Com a Reforma, a tributação passa a ser ligada ao destino, ou seja, à região onde o cliente está. Para um software SaaS, com milhares de clientes espalhados por 5.570 municípios brasileiros, isso significa que o sistema de faturamento precisa ser capaz, da noite para o dia, de lidar com uma malha fiscal descentralizada. O “simples” ato de emitir uma nota fiscal se tornou um desafio de engenharia de dados. Esta mudança força uma seleção natural no mercado de tecnologia, afinal, há softwares que dependem de atualizações manuais ou “patches” anuais, que passam a correr risco de obsolescência imediata. Os softwares de gestão contábil e fiscal, como ERPs, devem ser adaptados para garantir o correto enquadramento tributário automático, uma vez que o novo padrão exige, entre outros pontos: – Atualização Automática: visto que as regras fiscais mudam sem intervenção do usuário; – Integração Contábil em Tempo Real: fim das importações manuais de arquivos no final do mês; – Inteligência de Localização: o sistema precisa saber onde o tomador do serviço está para calcular o imposto correto instantaneamente. Se para o software o desafio é técnico, para o contador é consultivo. Com a automação resolvendo a complexidade do cálculo, o papel do contador migra da “apuração” para a “orientação”. Empresas de tecnologia e ecossistemas que se anteciparam às mudanças promovidas pela Reforma Tributária já permitem que o contador foque em explicar o impacto financeiro da mudança para o cliente em vez de passar horas configurando alíquotas. Apesar do susto inicial, o cenário é promissor. A padronização fiscal tende a reduzir o gigantesco contencioso tributário brasileiro — um dos maiores custos ocultos de se fazer negócios no país. Para escritórios contábeis e empresas de software, a Reforma é um divisor de águas. Quem tentar adaptar “gambiarras” nos sistemas antigos certamente sofrerá. Aqueles, porém, que abraçarem soluções nativas da nova era tributária — com dados em nuvem e conformidade automática — devem encontrar um mercado ávido por segurança e clareza. A era da contabilidade digital 2.0 começou. Sua tecnologia está pronta para ela? *Mauricio Frizzarin é fundador e CEO da QYON Tecnologia, empresa norte-americana especializada no desenvolvimento de softwares para gestão empresarial com inteligência artificial. Frizzarin cursou Tecnologia de Software e Marketing, OPM (Owner/President Management) na Harvard Business School, Executive Education em Inteligência Artificial na University of California, Berkeley e em Fintech em Harvard – www.qyon.com

Reforma Tributária coloca área fiscal no centro do resultado financeiro das empresas

A Reforma Tributária já está em vigor e começa a produzir impactos concretos no dia a dia das empresas brasileiras, especialmente na área fiscal. Com a adoção do novo modelo, o departamento fiscal deixa de atuar apenas no encerramento dos processos e passa a influenciar diretamente o resultado financeiro dos negócios a partir de 2026. Isso ocorre porque o sistema tributário passa a depender fortemente de dados e validações digitais desde a origem das operações, como cadastro, contratos, pedidos, emissão de documentos e apuração. Informações incorretas ou incompletas podem gerar imposto errado, afetando diretamente o direito ao crédito tributário. “Com a reforma, a área fiscal deixa de ser apenas reativa e se torna um hub de governança e performance”, afirma Roberto De Lázari, diretor de parcerias e estratégias da All Tax. O modelo adotado com a reforma é o Imposto sobre Valor Agregado Dual (IVA Dual), composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de âmbito federal, que substituirá PIS, Cofins e IPI, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que entra no lugar do ICMS e do ISS, de competência de estados e municípios. O sistema permite que o imposto pago nas etapas anteriores da cadeia produtiva seja recuperado por meio do mecanismo de crédito e débito. “Na prática, o crédito deixa de ser uma oportunidade pontual e passa a ser um elemento estrutural de margem e caixa. O imposto pago nas aquisições compõe o crédito a ser apropriado, reduzindo o imposto devido nas etapas seguintes”, explica De Lázari. Na primeira fase da reforma, as empresas operarão simultaneamente os dois sistemas tributários, com IBS e CBS apenas destacados nos documentos fiscais, enquanto a arrecadação efetiva dos novos tributos ocorrerá em um momento posterior. Essa convivência exige adequações nos layouts fiscais, criação de novos campos, revisão de regras de destaque e motores de cálculo capazes de simular os novos tributos por tipo de operação, além de uma governança de dados muito mais rigorosa. Segundo o executivo, empresas que já contam com processos fiscais bem estruturados largam em vantagem. “Essas organizações conseguem capturar crédito com consistência, sustentar esse crédito com documentação e evidências e evitar perdas decorrentes de falhas de dados”, afirma. Além disso, companhias mais maduras têm a capacidade de reconciliar e auditar continuamente o que foi destacado nos documentos eletrônicos em relação ao que foi efetivamente apurado. “Isso reduz surpresas, disputas e protege o caixa. Quem já é organizado tende a aproveitar mais crédito, mais rápido e com menos risco, transformando governança fiscal em retorno financeiro”, destaca. Por outro lado, empresas com menor nível de organização fiscal enfrentam desafios significativos e correm o risco de pagar mais impostos do que o devido. Erros em cadastros de produtos, serviços, localidades ou estabelecimentos, bem como informações incompletas, podem impedir a geração correta de crédito e comprometer parte relevante do benefício do IVA. “Um dado errado ou incompleto vira imposto errado e impacta diretamente o direito ao crédito”, destaca De Lázari. Além disso, em 2027, terá início a Apuração Assistida, mecanismo pelo qual o governo apresentará às empresas o seu cálculo de apuração dos tributos. “Nesse contexto, dispor de um sistema estruturado e automatizado será essencial para auditar os valores apurados, validar premissas e bases de cálculo e subsidiar eventuais contestações e correções junto ao Fisco”, reforça. O impacto financeiro, entretanto, não é o único ponto de atenção, também há riscos operacionais. Inconsistências em documentos eletrônicos podem gerar rejeições, contingências, retrabalho e abrir espaço para questionamentos e penalidades em um ambiente cada vez mais digital e automatizado. Para De Lázari, 2026 será um ano decisivo de preparação. “O foco deve ser operar em modo duplo, colocando o ambiente em ordem para entrar em 2027 com o sistema tributário totalmente ajustado: regras parametrizadas, cadastros saneados, integrações funcionando e trilhas de evidência implantadas”, afirma. Segundo o executivo, a Reforma Tributária impacta todos os setores da economia, em maior ou menor grau. O diferencial competitivo, no entanto, será o nível de maturidade em dados, documentos e governança. “A reforma premia quem controla bem a cadeia e penaliza quem opera no improviso”, conclui.

Reforma Tributária: 4 ações para PMEs tomarem em de 2026

Por ano, as micro e pequenas empresas, incluindo MEIs, geram mais de R$ 700 bilhões em renda, segundo levantamento de 2024 do Sebrae. Agora, com a aprovação do PLP 108/2024 no Senado e a implantação do novo sistema de tributação, essas empresas precisam agir rapidamente para se adaptar. O novo modelo, baseado no IBS (Imposto sobre Bens e Serviços) e na CBS (Contribuição sobre Bens e Serviços), promete simplificar tributos sobre consumo, mas deve alterar rotinas contábeis, fiscais e operacionais. “A reforma muda a estrutura de cálculo e de declaração de impostos, o que exige que as PMEs revisem desde o regime tributário até a forma como emitem notas fiscais e registram suas operações”, afirma Reginaldo Stocco, CEO da vhsys. O que as PMEs devem fazer agora: 1. Reorganizar o controle fiscal e contábil O novo sistema demandará integração de informações e maior precisão no cruzamento de dados. Automatizar a emissão de notas, revisar cadastros de produtos e serviços e centralizar relatórios contábeis são passos fundamentais para garantir conformidade desde o início da transição. 2. Atualizar sistemas de gestão Empresas que ainda operam com controles manuais terão mais dificuldade de acompanhar as novas alíquotas e obrigações. Plataformas integradas de gestão, que conectam estoque, vendas, financeiro e emissão fiscal, ajudam a reduzir erros e garantir atualizações automáticas conforme o novo modelo entra em vigor. 3. Simular cenários e planejar o fluxo de caixa Com a mudança na tributação sobre o consumo, margens e custos podem variar. As PMEs devem realizar simulações para entender o impacto nas receitas e despesas, antecipar ajustes de precificação e renegociar contratos com clientes e fornecedores. Ter uma visão consolidada do fluxo de caixa e relatórios preditivos será essencial para tomar decisões rápidas. 4. Capacitar equipes e revisar processos internos A reforma exigirá atualização técnica de profissionais das áreas contábil, fiscal, financeira e de TI. É importante treinar as equipes, revisar fluxos internos e criar rotinas de conferência automática para evitar inconsistências entre o sistema de gestão e as obrigações acessórias. “Essa mudança deve ser vista como uma oportunidade de modernizar a operação. Ao investir em digitalização e integração, as empresas ganham mais controle, reduzem riscos e tornam o negócio mais sustentável para o futuro”, finaliza o CEO.

Categorias