Brasil no Oscar sinaliza amadurecimento da indústria criativa e reforça atratividade do setor para investidores

O destaque recente do Brasil no Oscar, com produções nacionais conquistando indicações consecutivas e espaço entre os principais prêmios da indústria cinematográfica, aprofundam um movimento que já vinha se desenhando no mercado e passam a produzir efeitos que vão além da visibilidade cultural. Para Matheus Barcelos Martins, advogado especializado em venture capital, private equity e estruturação de negócios, o momento sinaliza um estágio mais avançado de maturidade da indústria criativa brasileira, reforçando a atratividade do audiovisual como classe de ativo dentro da economia criativa. Dados do governo federal mostram que o audiovisual brasileiro registrou 3.981 obras em 2025, número recorde de produção, além de R$ 1,41 bilhão em recursos públicos destinados ao fomento do setor, segundo o Ministério da Cultura/Ancine. Já um estudo da Oxford Economics aponta que a indústria audiovisual contribuiu com R$ 70,2 bilhões para o PIB brasileiro em 2024 e gerou mais de 600 mil empregos diretos e indiretos. Fundador da Barcelos Martins Advogados, boutique jurídica que já assessorou mais de R$ 2 bilhões em transações envolvendo startups e empresas em expansão, o especialista acompanha de perto a profissionalização de setores intensivos em propriedade intelectual. Segundo ele, o reconhecimento internacional funciona como um catalisador para negócios que já vinham se estruturando nos bastidores. “Quando um país passa a ter presença recorrente em premiações globais, o mercado começa a enxergar aquele setor não apenas como expressão cultural, mas como uma indústria com capacidade de gerar receita, escalar e atrair capital”, afirma. Na avaliação do advogado, esse cenário reforça o apetite de investidores por negócios ligados à cadeia do audiovisual, como produtoras, estúdios, plataformas de conteúdo e empresas detentoras de catálogos e direitos autorais. “O ativo central desse mercado é a propriedade intelectual, e ela precisa estar bem estruturada do ponto de vista societário, contratual e de governança para se tornar realmente atrativa a fundos e compradores estratégicos”, explica. Matheus acrescenta que o avanço do setor tende a estimular operações de fusão e aquisição, rodadas de investimento e parcerias internacionais, desde que as empresas estejam preparadas. “O Brasil começa a entrar em um estágio em que criatividade e capital se encontram, e quem se organizar primeiro, com estrutura jurídica sólida e visão de longo prazo, vai capturar mais valor desse movimento”, conclui.

Economia da atenção redefine as vendas digitais e impõe novo desafio aos sellers de marketplace

A consolidação da economia da atenção está redesenhando o funcionamento do comércio digital e alterando, de forma estrutural, a dinâmica de vendas nos marketplaces. O foco deixou de ser exclusivamente o produto e passou a ser o tempo que o consumidor dedica à plataforma e a forma como ele interage com marcas e vendedores antes de decidir pela compra. Esse movimento acompanha uma mudança mais ampla no comportamento digital. Segundo a DataReportal, o brasileiro passa mais de 9 horas por dia conectado, com forte concentração em ambientes que combinam entretenimento, interação e consumo. Marketplaces, atentos a esse padrão, vêm incorporando recursos típicos das redes sociais, como vídeos curtos, transmissões ao vivo, avaliações em destaque e recomendações personalizadas, ampliando o tempo de permanência do usuário. Especialista em vendas online e marketplaces, Hugo Vasconcelos, CEO da VDV, avalia que a mudança já está em curso e não se trata de uma tendência distante. “O marketplace deixou de ser só um lugar de transação. Ele virou um ambiente de permanência. Quem entende isso começa a vender antes mesmo do clique no botão de compra”, afirma. O modelo tem efeitos diretos sobre vendas e margem. Um relatório da McKinsey aponta que aumentar o engajamento do consumidor ao longo da jornada pode elevar em até 40% as taxas de conversão. Já a PwC indica que 73% dos consumidores consideram a experiência tão relevante quanto o preço na decisão de compra, sinalizando que competir apenas por desconto se tornou uma estratégia cada vez menos sustentável. Para Vasconcelos, esse cenário expõe uma divisão clara entre operações maduras e improvisadas. “Quem baseia tudo em desconto e anúncio barato entra numa corrida para o fundo do poço. A margem some rápido. Já quem constrói experiência começa a disputar atenção  e a atenção vira conversão”, diz. Bom ou ruim para os sellers? O avanço da economia da atenção não é, por si só, bom ou ruim, ele é seletivo. Sellers que estruturam sua operação apenas em volume e preço tendem a enfrentar margens cada vez mais apertadas e maior dependência de mídia paga. “Esse modelo funciona por um tempo, mas fica frágil. Qualquer mudança de algoritmo ou aumento no custo de ads desmonta a operação”, avalia o executivo. Por outro lado, quem investe em diferenciação tende a ganhar espaço. Estudo da Bain & Company mostra que estratégias focadas exclusivamente em preço reduzem a rentabilidade no médio prazo. “O seller que constrói valor consegue sustentar preço. Ele não precisa ser o mais barato para vender bem”, afirma Vasconcelos. Como pegar carona na economia da atenção A principal mudança está na forma de apresentar e conduzir a oferta. O conteúdo passa a ser parte da estratégia comercial. Vídeos demonstrativos, imagens claras, descrições objetivas e respostas rápidas reduzem a insegurança e ajudam o consumidor a decidir. “Não é sobre virar influenciador. É sobre tirar dúvidas, explicar melhor e facilitar a decisão”, explica. A interação também pesa cada vez mais. Avaliações, histórico de atendimento e taxa de resposta passam a influenciar a exposição orgânica dentro das plataformas. “Marketplace premia quem gera boa experiência. Quem atende bem, responde rápido e entrega o que promete acaba aparecendo mais”, diz. Redes sociais e site próprio ajudam? Redes sociais funcionam como canais de atenção e construção de autoridade, mesmo quando a venda final acontece dentro do marketplace. Dados da Hootsuite indicam que consumidores expostos a uma marca em mais de um canal têm maior propensão à compra. “A rede social aquece o público. Quando ele encontra o produto no marketplace, já existe confiança”, afirma Vasconcelos. O site próprio também ganha relevância como apoio à decisão. Ele centraliza informações, apresenta a marca e reforça a credibilidade. “O site não concorre com o marketplace. Ele sustenta a escolha. O consumidor pesquisa, compara e valida antes de comprar”, completa. Impactos no faturamento e na recorrência Os efeitos aparecem no médio prazo. Pesquisa da Harvard Business Review mostra que aumentar a taxa de retenção de clientes em 5% pode elevar o lucro entre 25% e 95%. Em ambientes de marketplace, onde a recompra depende de confiança, atenção e experiência se convertem diretamente em faturamento recorrente. “A economia da atenção muda o jogo porque transforma venda em relacionamento. Quem entende isso sai da guerra de preço e começa a construir margem”, resume Vasconcelos. Para ele, a pergunta central não é se esse modelo vai virar padrão, mas quem estará preparado quando ele se consolidar. Em um cenário em que atenção gera conversão e experiência sustenta margem, vender bem deixou de ser apenas uma questão operacional e passou a exigir estratégia, consistência e posicionamento dentro do ecossistema digital.

Dólar em queda: avanço permanente ou apenas um respiro para a economia brasileira?

Por André Charone A recente trajetória de queda do dólar frente ao real reacendeu uma velha discussão entre economistas, empresários e investidores: estamos diante de uma mudança estrutural ou apenas de mais um movimento cíclico do mercado global? Embora oscilações cambiais façam parte da dinâmica natural das economias abertas, o atual recuo da moeda americana revela uma combinação relevante de fatores e, mais importante, traz implicações estratégicas para empresas brasileiras. No cenário internacional, o principal vetor tem sido a revisão das expectativas em torno da política monetária dos Estados Unidos. Com sinais de desaceleração econômica e inflação mais comportada, o mercado passou a trabalhar com a possibilidade de flexibilização dos juros. Quando isso acontece, o capital global tende a buscar destinos com maior potencial de retorno. E o Brasil, tradicional beneficiário desse tipo de rotação, volta ao radar. O diferencial de juros ainda elevado, somado ao tamanho do mercado interno e à liquidez dos ativos financeiros, cria uma equação atraente para investidores estrangeiros. O resultado é conhecido: entrada de dólares, valorização do real e alívio temporário sobre pressões inflacionárias. Mas interpretar esse movimento como uma demonstração inequívoca de confiança seria um erro estratégico. Para André Charone, contador, professor universitário e mestre em Negócios Internacionais, o comportamento do câmbio deve ser lido com maturidade analítica especialmente por líderes empresariais. “O câmbio é menos um retrato da economia e mais um termômetro das expectativas globais. Parte relevante dessa queda está associada à realocação de capital internacional. Isso melhora o ambiente financeiro no curto prazo, mas não elimina os desafios estruturais do país”, afirma. Na prática, o dólar mais baixo produz efeitos assimétricos entre os setores. Empresas dependentes de importações ganham margem, reduzem custos e ampliam sua previsibilidade operacional. Já os exportadores enfrentam compressão de receitas e, em alguns casos, perda de competitividade. Esse tipo de deslocamento exige respostas rápidas, e estratégicas. “Negócios expostos ao câmbio não deveriam tentar prever o dólar, mas se preparar para ele. Estruturas de hedge, diversificação de fornecedores e planejamento financeiro sofisticado deixam de ser diferenciais e passam a ser requisitos de sobrevivência”, explica Charone. Outro ponto crucial é evitar o erro recorrente de transformar movimentos conjunturais em premissas permanentes. O histórico recente mostra que reversões cambiais podem ser abruptas, principalmente quando motivadas por mudanças na percepção de risco global. Em um ambiente de elevada mobilidade de capitais, moedas emergentes funcionam quase como ativos financeiros, sensíveis ao humor dos mercados e menos ancoradas em transformações estruturais de longo prazo. Isso não significa que a queda do dólar seja irrelevante. Pelo contrário: ela cria uma janela de oportunidade. Empresas com visão estratégica podem aproveitar o momento para antecipar importações, renegociar contratos internacionais, revisar estruturas de custo e até acelerar projetos de modernização dependentes de tecnologia estrangeira. O erro seria confundir oportunidade com estabilidade. “O empresário que interpreta o dólar mais baixo como uma nova normalidade corre um risco desnecessário. O câmbio é, por natureza, volátil, e continuará sendo enquanto o mundo operar sob ciclos financeiros cada vez mais rápidos”, diz Charone. No fundo, o movimento recente reforça uma das principais lições da economia contemporânea: competitividade não pode depender da taxa de câmbio. Países e empresas resilientes são aqueles capazes de prosperar tanto com o dólar alto quanto com ele mais baixo. A pergunta, portanto, não é apenas por que o dólar caiu, mas quem está preparado para transformar esse movimento em vantagem estratégica antes que o ciclo vire novamente. Sobre André Charone André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).  É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional.  Seu mais recente trabalho é o livro “Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática”, em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.  Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/  e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1   Instagram: @andrecharone   Imagem André: Divulgação / Consultório da Fama

Taxa Selic a 15%: como pode?

Por Jorge Gonçalves Filho Novamente, o Copom (Comitê de Política Monetária) manteve a taxa Selic em 15% ao ano por decisão unânime dos oito membros que participam do colegiado; logo, vale registrar que no Copom não há decisão monocrática, o que afasta a responsabilidade única do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo. Como noticiado em artigos de meios de comunicação especializados, os agentes do mercado financeiro já esperavam a manutenção da taxa Selic em 15% a.a., assim como a sinalização de que se antevê a flexibilização da política monetária com redução da taxa na próxima reunião com Copom, que deve ocorrer em 17 e 18 de março. O comunica do Banco Central, publicado em 28 de janeiro, tem todas as explicações técnicas que balizaram a decisão do Copom. Sem querer aqui entrar em detalhes, menciona o ambiente externo incerto, que exige cautela por parte dos países emergentes; e o ambiente doméstico, com trajetória de moderação no crescimento da atividade econômica, mercado de trabalho resiliente e arrefecimento da inflação, apesar das projeções ainda acima da meta em um horizonte relevante; e comenta os cenários para os riscos de alta ou baixa da inflação, taxa de cambio, etc., e que o Comitê segue acompanhando os impactos do contexto geopolítico e o desenvolvimento doméstico da política fiscal. Segue, quase ao final, afirmando que a estratégia em curso tem se mostrado adequada para assegurar a convergência da inflação à meta. Muito bem, sugiro que todos leiam atentamente o comunicado do BC, mas não se conformem com as explicações, que podem ser adequadas tecnicamente, mas deixam a desejar quando analisamos que a Selic a 15% a.a. gera juros reais inaceitáveis de aproximadamente 10 % a.a., o segundo maior do mundo, perdendo apenas para a Rússia. Com a elevada taxa Selic, de 15% a.a., o mercado financeiro encontra respaldo para manter as também elevadas taxas praticadas no mercado de crédito, a saber, alguns exemplos: Assim, fora do mundo do sistema financeiro, o mercado tem visto seus resultados serem eliminados dadas as elevadas taxas de juros praticadas no mercado de crédito, haja vista que entre as empresas de varejo listadas em bolsa, em seus balanços de 2025, na média, 5% da receita bruta foi consumida com remuneração ao capital de terceiros (juros), com crescimento de 26% sobre o ano anterior, enquanto o custo com pessoal, por exemplo, permaneceu estável em 8%. Somando-se a situação do elevadíssimo custo de capital para as empresas, os consumidores também estão cada vez mais endividados e inadimplentes, não conseguindo fazer frente aos encargos cobrados, ambas situações inaceitáveis para uma economia que precisa crescer. Há uma economia real que precisa ser mais ouvida. Mesmo a recente iniciativa do Banco Central, o lançamento da pesquisa Firmus, com o objetivo de captar a percepção das empresas não financeiras sobre a situação de seus negócios, parece ainda não estar surtindo efeito. Caso estivesse, muito provavelmente haveria redução da taxa Selic. Como pode ser mantida a elevada taxa Selic em 15% a.a.? Basta ir ao mercado, junto a pequenas, médias e grandes empresas para se constatar a gravidade e as consequências que este nível de juros está gerando na operação, nos investimentos e no futuro das empresas. Destaca-se que muitas empresas pararam ou reduziram seus investimentos, em especial as de varejo. E o reflexo negativo não tardará por chegar. Aguardar março para ver a taxa Selic cair 0,25 p.p. ou 0,50 p.p., esperar dezembro para alcançar 12,5% ou 12% a.a., como o mercado financeiro tem previsto, é uma queda muito pequena, insuficiente para que boa parte das empresas consiga sobreviver ao elevadíssimo custo de capital. As empresas não financeiras requerem uma taxa menor, os consumidores precisam de uma taxa menor, o país necessita de uma Selic menor. Se esta taxa Selic é reflexo, efeito de várias causas, então que se ataque com resultado as causas internas indicadas pelo Banco Central, e que este tenha temperança para acelerar a queda da Selic. Como pode? Para uma inflação que está sendo projetada entre 3 a 4% a.a. em 2026, ter uma Selic de 15% a 12% é inaceitável. É urgente a queda da Selic para abaixo de dois dígitos. Jorge Gonçalves Filho Presidente do IDV – Instituto para Desenvolvimento do Varejo

Reforma Tributária coloca área fiscal no centro do resultado financeiro das empresas

A Reforma Tributária já está em vigor e começa a produzir impactos concretos no dia a dia das empresas brasileiras, especialmente na área fiscal. Com a adoção do novo modelo, o departamento fiscal deixa de atuar apenas no encerramento dos processos e passa a influenciar diretamente o resultado financeiro dos negócios a partir de 2026. Isso ocorre porque o sistema tributário passa a depender fortemente de dados e validações digitais desde a origem das operações, como cadastro, contratos, pedidos, emissão de documentos e apuração. Informações incorretas ou incompletas podem gerar imposto errado, afetando diretamente o direito ao crédito tributário. “Com a reforma, a área fiscal deixa de ser apenas reativa e se torna um hub de governança e performance”, afirma Roberto De Lázari, diretor de parcerias e estratégias da All Tax. O modelo adotado com a reforma é o Imposto sobre Valor Agregado Dual (IVA Dual), composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), de âmbito federal, que substituirá PIS, Cofins e IPI, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), que entra no lugar do ICMS e do ISS, de competência de estados e municípios. O sistema permite que o imposto pago nas etapas anteriores da cadeia produtiva seja recuperado por meio do mecanismo de crédito e débito. “Na prática, o crédito deixa de ser uma oportunidade pontual e passa a ser um elemento estrutural de margem e caixa. O imposto pago nas aquisições compõe o crédito a ser apropriado, reduzindo o imposto devido nas etapas seguintes”, explica De Lázari. Na primeira fase da reforma, as empresas operarão simultaneamente os dois sistemas tributários, com IBS e CBS apenas destacados nos documentos fiscais, enquanto a arrecadação efetiva dos novos tributos ocorrerá em um momento posterior. Essa convivência exige adequações nos layouts fiscais, criação de novos campos, revisão de regras de destaque e motores de cálculo capazes de simular os novos tributos por tipo de operação, além de uma governança de dados muito mais rigorosa. Segundo o executivo, empresas que já contam com processos fiscais bem estruturados largam em vantagem. “Essas organizações conseguem capturar crédito com consistência, sustentar esse crédito com documentação e evidências e evitar perdas decorrentes de falhas de dados”, afirma. Além disso, companhias mais maduras têm a capacidade de reconciliar e auditar continuamente o que foi destacado nos documentos eletrônicos em relação ao que foi efetivamente apurado. “Isso reduz surpresas, disputas e protege o caixa. Quem já é organizado tende a aproveitar mais crédito, mais rápido e com menos risco, transformando governança fiscal em retorno financeiro”, destaca. Por outro lado, empresas com menor nível de organização fiscal enfrentam desafios significativos e correm o risco de pagar mais impostos do que o devido. Erros em cadastros de produtos, serviços, localidades ou estabelecimentos, bem como informações incompletas, podem impedir a geração correta de crédito e comprometer parte relevante do benefício do IVA. “Um dado errado ou incompleto vira imposto errado e impacta diretamente o direito ao crédito”, destaca De Lázari. Além disso, em 2027, terá início a Apuração Assistida, mecanismo pelo qual o governo apresentará às empresas o seu cálculo de apuração dos tributos. “Nesse contexto, dispor de um sistema estruturado e automatizado será essencial para auditar os valores apurados, validar premissas e bases de cálculo e subsidiar eventuais contestações e correções junto ao Fisco”, reforça. O impacto financeiro, entretanto, não é o único ponto de atenção, também há riscos operacionais. Inconsistências em documentos eletrônicos podem gerar rejeições, contingências, retrabalho e abrir espaço para questionamentos e penalidades em um ambiente cada vez mais digital e automatizado. Para De Lázari, 2026 será um ano decisivo de preparação. “O foco deve ser operar em modo duplo, colocando o ambiente em ordem para entrar em 2027 com o sistema tributário totalmente ajustado: regras parametrizadas, cadastros saneados, integrações funcionando e trilhas de evidência implantadas”, afirma. Segundo o executivo, a Reforma Tributária impacta todos os setores da economia, em maior ou menor grau. O diferencial competitivo, no entanto, será o nível de maturidade em dados, documentos e governança. “A reforma premia quem controla bem a cadeia e penaliza quem opera no improviso”, conclui.

Mais da metade dos brasileiros não guarda dinheiro e tem menos de R$ 25 mil de patrimônio, aponta estudo global

Por André Charone Quando o assunto é dinheiro, o Brasil costuma aparecer em rankings internacionais como um país de patrimônio relevante. No entanto, uma leitura mais atenta dos dados mostra que essa percepção está longe de refletir a realidade da maioria da população. De acordo com o Global Wealth Report, estudo internacional que analisa a riqueza das famílias ao redor do mundo, o patrimônio médio do brasileiro adulto gira em torno de R$ 150 mil, considerando imóveis, veículos, aplicações financeiras e outros bens, já descontadas as dívidas. À primeira vista, o número pode até soar confortável. Mas ele esconde uma distorção profunda. “O patrimônio médio não representa o brasileiro comum. Ele é inflado por uma pequena parcela extremamente rica da população”, explica André Charone, contador e educador financeiro. “Quando analisamos o patrimônio mediano, que mostra quanto realmente tem o brasileiro típico, o retrato muda completamente.” Segundo o mesmo estudo, o patrimônio mediano no Brasil fica entre R$ 20 mil e R$ 25 mil. Em termos práticos, isso significa que metade dos brasileiros adultos possui patrimônio total inferior a esse valor, somando tudo o que têm ao longo da vida. A média que engana A diferença entre patrimônio médio e mediano é um dos indicadores mais claros da desigualdade brasileira. Enquanto a média sugere um país relativamente patrimonializado, a mediana mostra uma população com baixa capacidade de acumulação e altamente vulnerável a choques financeiros. “É como dizer que, em uma sala com um milionário e nove pessoas endividadas, todos são relativamente ricos porque a média sobe. Mas isso não paga as contas de ninguém”, observa Charone. Patrimônio existe, mas não é dinheiro disponível Outro ponto crítico está na qualidade desse patrimônio. Grande parte do valor declarado pelos brasileiros está concentrada em ativos pouco líquidos, como imóveis de baixo valor ou veículos, muitas vezes adquiridos com muito esforço ao longo de décadas. Quando o recorte se limita ao patrimônio financeiro, dinheiro em conta, poupança e investimentos, o cenário se torna ainda mais preocupante. Pesquisas nacionais mostram que a maioria dos brasileiros não possui reserva de emergência ou tem valores muito baixos, frequentemente inferiores a R$ 5 mil. “Na prática, isso significa que um imprevisto relativamente simples, como uma despesa médica ou alguns meses sem renda, já é suficiente para empurrar milhões de famílias para o endividamento”, afirma o educador financeiro. Um retrato da desigualdade estrutural O Brasil figura entre os países com maior concentração de riqueza do mundo, segundo o Global Wealth Report. Uma pequena elite concentra uma fatia expressiva do patrimônio nacional, enquanto a maioria depende quase exclusivamente da renda mensal para sobreviver. “O Brasil não é um país pobre em riqueza total, mas é extremamente desigual na sua distribuição. Isso explica por que convivemos com números macroeconômicos robustos e, ao mesmo tempo, com uma população financeiramente frágil”, resume Charone. O impacto no cotidiano das famílias A baixa formação de patrimônio limita escolhas fundamentais: investir, empreender, mudar de carreira ou até planejar a aposentadoria. Sem uma base mínima de reservas, o risco financeiro se torna parte permanente da vida. “Sem patrimônio, não há proteção. E sem proteção, qualquer crise vira um problema grave. Educação financeira e planejamento de longo prazo não são luxo; são instrumentos de sobrevivência econômica”, conclui André Charone. Mais do que estatísticas, os dados revelam um desafio urgente para o país: transformar renda em patrimônio real, reduzindo a dependência do crédito e criando condições para que mais brasileiros consigam, de fato, construir segurança financeira ao longo da vida. Sobre o autor: André Charone é contador, professor universitário, Mestre em Negócios Internacionais pela Must University (Flórida-EUA), possui MBA em Gestão Financeira, Controladoria e Auditoria pela FGV (São Paulo – Brasil) e certificação internacional pela Universidade de Harvard (Massachusetts-EUA) e Disney Institute (Flórida-EUA).  É sócio do escritório Belconta – Belém Contabilidade e do Portal Neo Ensino, autor de livros e centenas de artigos na área contábil, empresarial e educacional.  Seu mais recente trabalho é o livro “Empresário Sem Fronteiras: Importação e Exportação para pequenas empresas na prática”, em que apresenta um guia realista para transformar negócios locais em marcas globais. A obra traz passo a passo estratégias de importação, exportação, precificação para mercados externos, regimes tributários corretos, além de dicas práticas de negociação e prevenção contra armadilhas no comércio internacional.  Disponível em versão física: https://loja.uiclap.com/titulo/ua111005/ e digital: https://play.google.com/store/books/details?id=nAB5EQAAQBAJ&pli=1  Instagram: @andrecharone

Crescimento do investimento brasileiro no exterior expõe necessidade de estrutura financeira, regulatória e governança para sustentar essas operações

Por Rodrigo Manoel Maia A internacionalização das empresas brasileiras ganhou escala e sofisticação. As manchetes celebram a chegada de companhias nacionais aos Estados Unidos, a Portugal e a outros mercados desenvolvidos, mas raramente revelam o componente que realmente sustenta essa expansão. A base não está na foto de inauguração, e sim na engenharia silenciosa de finanças internacionais, gestão de risco e conformidade regulatória. Quando essas estruturas falham, a expansão deixa de ser oportunidade e passa a representar um passivo capaz de comprometer a operação no Brasil. Os números mostram que esse movimento não é episódico. A posição de investimento direto brasileiro no exterior alcançou mais de 500 bilhões de dólares em 2024, maior nível da série do Banco Central e equivalente a mais de metade dos ativos externos nacionais. O dado comprova que o Brasil deixou de atuar apenas como receptor de capital e passou a assumir papel relevante como emissor estratégico de investimento corporativo. O ambiente global, porém, tornou-se mais desafiador. O World Investment Report 2025 da ONU registrou queda de 11% nos fluxos internacionais de investimento em 2024, o segundo ano consecutivo de retração, cenário influenciado pela elevação dos juros globais, pela redução da liquidez e por tensões geopolíticas persistentes. Quando o capital fica mais seletivo, governança se converte em critério de decisão, e não mais em etapa burocrática. É nesse ponto que a internacionalização se encontra com o compliance. A prática revela um padrão recorrente. Muitas empresas buscam assessoria quando contratos já foram assinados e estruturas societárias estão prontas, mas sem o alicerce regulatório necessário para sustentar a presença internacional. O erro mais comum é tratar a operação externa como extensão natural do CNPJ brasileiro. Cada jurisdição exige comprovação de substância econômica, padrões fiscais específicos e narrativa documental consistente. Sem isso, a filial nasce vulnerável e exposta a riscos que podem se materializar em sanções, litígios ou custos tributários inesperados. A agenda de integridade também passou a fazer parte do processo de internacionalização. As diretrizes europeias sobre cadeias de fornecedores e diligência ampliada mostram que competitividade não depende apenas de produto, mas de coerência entre discurso institucional e práticas internas. Empresas com governança consolidada se adaptam rapidamente. As demais precisam rever fluxos inteiros de gestão. A internacionalização responsável começa com perguntas estratégicas. A estrutura societária foi escolhida por racionalidade operacional ou por urgência? Os fluxos financeiros estão documentados de forma que resistam ao escrutínio de reguladores estrangeiros? O risco de sanção foi mapeado e integrado ao planejamento financeiro? Quando essas respostas não aparecem, a expansão não é uma estratégia, e sim uma aposta. Esse processo ocorre ao mesmo tempo em que cresce o número de empresas brasileiras de porte médio avançando para mercados desenvolvidos. São operações mais enxutas, mas fundamentais para a diversificação e para o equilíbrio financeiro dos grupos que representam. Para essas companhias, errar na estrutura pode custar mais do que suspender o plano. Mesmo em um contexto internacional mais rígido, o fluxo de capital para o Brasil permanece expressivo. De janeiro a outubro de 2025, o país recebeu 74,3 bilhões de dólares em investimento direto estrangeiro, superando o total do ano anterior, segundo dados oficiais. O movimento simultâneo de forte saída e entrada de capital mostra que o Brasil está inserido em circuitos globais que demandam padrões mais elevados de governança e transparência. Isso vale tanto para empresas brasileiras que buscam novos mercados quanto para grupos estrangeiros que iniciam operações aqui. Finanças internacionais, governança e compliance não aparecem nas fotos de inauguração, mas determinam se a placa da filial permanecerá na porta ao longo dos anos. Sobre: Rodrigo Manoel Maia é executivo de finanças e estratégia com mais de vinte anos de atuação. CFO especialista em mercado Publishing da Dot Lib Information Group, holding internacional com presença na América Latina, Portugal, Espanha e Estados Unidos, é especialista em expansão internacional, governança corporativa e planejamento estratégico.

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