Na primeira semana do BBB 21, enquanto o público ainda se ajustava ao elenco e à dinâmica do jogo, Kerline deixou a casa. Pouco tempo de tela, nenhum enredo consolidado e um choro que rapidamente escapou da edição para virar meme. O que poderia ter sido apenas mais uma eliminação precoce acabou se transformando em um raro caso de reaproveitamento inteligente de imagem na cultura digital.

Dias depois da saída, Kerline reapareceu não como ex-participante esquecida, mas como personagem central de campanhas publicitárias que assumiram, sem constrangimento, o episódio que a marcou.

Em um comercial da TIM, já na edição atual do reality, 5 anos após a sua breve passagem pela casa mais vigiada do Brasil, o choro histórico foi resgatado como elemento narrativo, ativando a memória afetiva do público que acompanha o reality não apenas pela competição, mas pelos momentos que viram cultura pop. Na sequência, a marca Fys também entrou na conversa, explorando o humor e a autodepreciação como linguagem publicitária.

Do meme à estratégia
De acordo com Jennifer de Paula, MBA em Marketing e Negócios Interativos e diretora da IMF Press Global, o caso ilustra muito bem um movimento cada vez mais comum na comunicação contemporânea.

“Uma boa estratégia de comunicação digital pode ajudar a redefinir o que poderia ser uma mídia negativa em um direcionamento positivo para a carreira. No ambiente das redes, o fracasso isolado não encerra narrativas, ele pode ser o ponto de partida para uma nova construção”.

“O diferencial, neste caso, esteve na leitura precisa do imaginário coletivo. As campanhas não tentaram reposicionar Kerline como vencedora do jogo, tampouco esconder sua eliminação. Pelo contrário, assumiram o episódio como símbolo, transformando o choro em linguagem compartilhada, reconhecível e facilmente replicável”, analisa.

Storytelling e memória coletiva
Mais do que vender produtos, as marcas apostaram no storytelling. Ao revisitar a primeira eliminada, ativaram um tipo específico de engajamento: aquele que nasce da lembrança, da ironia e do reconhecimento imediato.

“O público não consome apenas o programa, consome a conversa em torno dele. Rankings de eliminações, memes, choros icônicos e comentários nas redes fazem parte da experiência”, explica Jennifer de Paula.

Com toda esta estratégia de comunicação digital, Kerline passa a ocupar um espaço muito específico no BBB. Não venceu provas, não chegou à final, mas conquistou algo que poucos participantes conseguem, permanecer relevante após sair cedo.

.O episódio reforça uma lógica cada vez mais clara na era digital. Visibilidade não está apenas no tempo de exposição na mídia, mas na capacidade de transformar momentos espontâneos em narrativas duradouras.

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